quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Esmeralda - Capítulo 3

Haviam muitos festejos naquela vila, os aldeões gostavam de ao menos se reunir em volta de uma fogueira uma vez na semana. Esmeralda ia a quase todos com o pai, para ele era uma honra aos velhos tempos como cigano. Para ela, uma amostra grátis da vida e liberdade.
Passou seu dia ajudando a enfeitar as casas com flores de papel e confeites coloridos, brincando com as crianças enquanto deixava tudo mais bonito para o que haveria à noite. E quando o sol começasse a se pôr ela só precisaria descansar um pouco e se preparar para o que haveria a seguir, mas, entre uma flor e outra nas paredes, uma figura surgiu ao seu lado. Usando simples vestes de camponês surradas, com cabelos cacheados e escuros e dono de belos olhos azuis como a noite, o moço da fogueira, e que estivera na sua casa dias antes, apareceu.
Notando o claro espanto da moça, Luciano desacelerou os passos, se aproximando devagar, sorrindo, tirou a boina para cumprimentá-la adequadamente.
- Boa noite, senhorita. Meu nome é Luciano Benacci, é um imenso prazer conhecê-la... Finalmente.
- És o moço que... Me observava dançar.
- Sim... - sorriu mais uma vez, tímido.

Ela não sabia muito bem o que dizer, o que saberia sobre rapazes? Sua mãe, na promessa de casá-la com um homem rico jamais a ensinara nada sobre romances, ou cortejos. Se é que isto era um cortejo.
- Esmeralda D' Anniballe. Muito prazer. - sorriu levemente, oferecendo a mão, que ele aceitou, pousando um leve beijo.
- Tem belos olhos, senhorita. Vejo o porquê de tal nome.
- Obrigada. - seu rosto se avermelhou imediatamente, enquanto ela sorria.

Nenhum dos dois sabia o que dizer a seguir, nenhum dos dois queria estragar o que quer que seja prestes a começar, mas não bastasse isso, as pessoas ao redor começaram a reparar. Uma moça solteira falando com um homem que não fosse familiar naquele tempo não era bem visto.
- Se puder, me encontre mais tarde no bosque, perto do riacho, quando o festejo acabar. - ele disse, e havia animação em seus olhos - Estarei à sua espera. Boa noite, senhorita. - se curvou outra vez e se retirou, deixando-a com seus pensamentos.

Esmeralda mal podia aguentar o frio intenso na barriga. Mas conseguiu aproveitar as alegrias da noite mesmo assim, todos estavam tão belos e sorridentes, que nem viram problemas em ela gastar toda sua energia dançando sem parar, dissipando a ansiedade fora do corpo.
Quando começaram a retirar os enfeites, a exaustão chegando, ela se lembrou do encontro que havia marcado, como um grande estalo na mente. Olhou ao redor, procurando seu pai e sua mãe, vendo que ambos estavam distraídos, deu breves passos para trás, atenta para que ninguém notasse seus movimentos, escondendo as mãos às costas enquanto se afastava devagar. Vendo-se distante o suficiente, começou a correr para o bosque, que não ficava longe.
Chegando lá, vendo o quanto o ambiente estava escuro, começou a perceber como aquilo era perigoso, ainda mais para uma jovem sozinha. Mas respirou fundo e continuou procurando por Luciano. Viu uma silhueta masculina sentada só, à beira do riacho, que começava a ganhar tons violetas com o amanhecer se aproximando. Ela deu alguns passos à frente, receosa.
- Olá.

Luciano, ao virar-se, mal podia acreditar que era mesmo ela que estava ali, ou estava ficando louco de vez. Mas não pôde deixar de sorrir.
- Você veio. - ele se levantou e foi ao seu encontro.
- Eu não sei se deveria... Meus pais...
- Não irão gostar, eu sei. Mas fico feliz que o tenha feito mesmo assim.

Outro minuto de silêncio em que ninguém tinha ideia do que dizer, o que era estranho para ele, tão acostumado a encantar jovens e belas moças por aí. Esmeralda não era como as outras, mesmo que houvesse malícia oculta, ele não conseguia se sentir da mesma maneira com ela, possuía essa inocência e delicadeza no olhar, despertando seu instinto protetor. Ele não queria desfrutar dela, queria cuidá-la, protegê-la.
- Seu pai é muito bom no que faz. - disse, finalmente quebrando o silêncio - Ele me ajudou muito com algumas peças da minha casa.
- Ele é, realmente. Me ensinou muito do que sabe, e hoje o ajudo na marcenaria.
- Você trabalha com ele?
- Sim.

Ele assentiu, sem saber bem como continuar, olhou ao redor.
- Já veio por aqui antes? - perguntou, vendo ela sorrir timidamente.
- Nunca, meu pai diz que não é seguro.
- E ele tem certa razão.

Ao longe Esmeralda viu um grupo de flores coloridas, próximas ao riacho e algumas árvores, e se aproximou.
- Tão lindas, minha mãe adorar podar. - sentou-se ao lado, tocando algumas pétalas.
- São mesmo. - ele fez o mesmo, olhando-a. Quando esta percebeu, ruborizou o rosto.
- Por que me olhas assim?
- Você é... - com as pontas de seus dedos ele tocou o rosto dela, puxando o delicado queixo para si.

O beijo que se seguiu não teve pressa, nem fome. Apenas aconteceu. Ele sentia os lábios dela com toda paciência do mundo, como se qualquer movimento brusco fosse quebrá-la inteiramente. Ela sentia aquela maciez molhada, um pouco estranha até. A intimidade do ato a deixava sem saber como agir, como corresponder. Mas ela gostou, deixando-o levá-la lentamente, envolvê-la, coração dos dois bombeando essa energia nova.
Ninguém queria parar, ele puxou a cintura dela, posicionando-os de joelhos, as mãos acariciando-a devagar. Ela permanecia quase parada, sem saber como retribuir e nem se queria que parasse.
- Esmeralda!
- Filha!

Eram seus pais, ela se separou de Luciano rapidamente, respirando aos ofegos.
- Eu preciso ir, agora. - disse, tentando se levantar, mas ele puxou seu pulso.
- Quando vou te ver outra vez?
- Sabe onde me encontrar. - sorriu, deixando um último beijo, para correr a plenos pulmões de volta para a vila, torcendo que seus pais não notassem a mudança no interior da filha.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Esmeralda - Capítulo 2

- As moedas não vão durar por muito mais, Ricardo, precisamos fazer alguma coisa. - Isabela, mãe de Esmeralda dizia para seu marido - Você é muito bom no que faz, meu querido, mas não está sendo o suficiente e eu não sei se poderemos sobreviver muito mais com o que temos.
- Meu amor, daremos um jeito. Sempre demos.
- Mas e se não dermos? E se chegarmos a passar fome? - dizia aflita, quase ao ponto de chorar - Esmeralda é tão bonita. Tenho certeza de que consegue arranjar um bom partido, um bom moço que possa nos ajudar...
- Nós não vamos vender nossa filha, Isabela. - Ricardo cortou a esposa - Eu posso pedir ajuda a alguns amigos e começar consertando alguns móveis... Vamos conseguir, eu prometo. - afagou os ombros da esposa, passando-lhe conforto.

Mal sabia eles que Esmeralda ouvia tudo o que se passava, de um canto no outro cômodo. Sem fazer um ruído sequer, ela se retirou para seu quarto e lá ficou repassando a conversa na sua cabeça. Seria tão ruim assim se casar? Era por uma boa causa, não? Seus pais precisavam de ajuda. Resolveu ir para os fundos da casa e lá ficou, olhando o céu estrelado, cantarolando baixinho, perdida nos pensamentos.
- Sempre amei sua voz. - ela olhou para trás e viu que seu pai vinha ao seu encontro e se sentou ao lado, abraçando-a - Minha linda filha.
- Me proteges como se eu fosse de cristal, uma pedra preciosa.
- Mas você é. Minha preciosidade.
- Pai, e se eu tiver de me casar com um moço rico? Você e a mamãe precisam de ajuda. - disse, de repente, pegando Ricardo de surpresa - Ouvi o que vocês conversavam.
- Não vamos pensar nisso agora, está bem? O que você estava... - parou sua fala ao ouvir que batiam à porta.

Esmeralda e o pai se retiraram para dentro de casa onde ouviram Isabela reclamar com um homem, um rapaz, à porta.
- Fique aqui, filha. - ordenou Ricardo.

Ele foi até o rapaz, que insistia em vão com Isabela, para falar com o marceneiro, pedindo seus serviços. Mas, mesmo que fosse tarde, o senhor foi atender o rapaz, que explicou sua situação e Ricardo concordou em ajudar assim que o sol surgisse no dia seguinte. Esmeralda, curiosa, se esgueirou pela janela e viu, do lado de fora o rapaz que encontrara admirando-a no festejo enquanto dançava. Ele devolveu o olhar imediatamente.
Luciano simplesmente não podia acreditar, havia reencontrado a moça. A moça do festejo. Esmeralda. Os dois se encararam por uns segundos, ele estava estático, lembrando do modo como se movimentava. E ela, bem... Sentia como se o olhar dele pudesse desnudá-la, olhar dentro de sua alma e conhecer seus segredos mais profundos, e mesmo assim, continuar admirado. Não gostava da sensação, se sentia vulnerável, frágil, pensar que só olhando-a assim ela já era capaz de sentir um calor subir ao peito. Mal ela sabia que era o modo como ele se sentia também, mas ao contrário dela, não tinha medo disso, só fazia querer mais.
- Já está na hora de ir embora, rapaz. - Ricardo disse, percebendo os olhares direcionados à sua filha - Eu procuro você pela manhã.
- Sim, sim! - Luciano respondeu, franzindo o cenho, respirando fundo ao tentar se recuperar - É claro! - retirou sua boina como cumprimento e, olhando para o artesão e sua filha, despediu-se - Boa noite.

Ricardo voltou para dentro e retirou Esmeralda da janela.
- Você o conhece? - perguntou.
- Não, papai.
- Hum... Não seria bom se manter perto, ok? Sua mãe não iria gostar.
- Sim, senhor.

Ele deu um beijo na testa da filha e se retirou para dormir. Enquanto isso, Esmeralda ficava pensando no modo como aquele rapaz a encarava, e na tentadora possibilidade de vê-lo novamente.
 renata massa